R$ 3 mil: despesa pequena ou grande?

CONSYLION INSIGHTS · A CARTA DAS 7H10

O sistema mostra as vendas do dia, e o banco avisa cada Pix que cai. Vendas e recebimentos não são a mesma coisa, mas ambos chegam até o dono várias vezes por dia, em letra grande. O lucro só aparece quando alguém senta, separa o que saiu e faz a conta, e é muito fácil essa conta ficar para depois, ou para o contador, no fim do ano.

O resultado disso é que o número que aparece sozinho acaba mandando nas decisões. Contratar mais alguém, dar desconto para girar, comprar mais estoque, aumentar a retirada porque a conta está cheia: quase sempre isso se decide com o faturamento na cabeça. Quando alguém me diz que trabalha muito, vende e não vê sobrar nada, eu começaria por uma pergunta simples: qual número você olha antes de decidir?

Imagine uma loja que vendeu R$ 50 mil no mês. É a loja fictícia do guia de DRE do portal, com números redondos: depois das devoluções, dos impostos, do custo da mercadoria vendida, das despesas e do pró-labore do dono, sobram R$ 4.905. Menos de dez centavos de cada real vendido. Pense, nessa loja, numa despesa fixa nova de R$ 3 mil por mês. Olhando o faturamento, ela parece 6% do mês, quase nada. Olhando o resultado, ela leva mais de 60% do que sobrava. É a mesma decisão, e ela parece pequena ou enorme conforme o número que está na sua frente.

Eu tenho uma convicção sobre isso: o jogo é o lucro líquido e a geração de caixa, o dinheiro que entra de verdade e o quanto dele fica. Quando avalio se um crescimento está saudável, olho primeiro o quanto está sobrando no mês, depois o esforço e as horas que aquilo está cobrando. Faturamento subindo sem o lucro subir junto, às vezes, é sinal de que a dependência e o risco estão aumentando.

A DRE, demonstração do resultado do exercício, é o instrumento que coloca esse número na mesa. O nome assusta, mas a ideia é uma cascata: começa no que você vendeu e vai tirando degrau por degrau até sobrar o resultado. Ela tem um detalhe que muda a leitura. A lei das sociedades por ações, que serve de modelo para a estrutura, manda contar as receitas ganhas no período "independentemente da sua realização em moeda" (Lei 6.404/1976, art. 187). Em português claro, a venda entra no mês em que aconteceu, mesmo que o dinheiro caia depois. Por isso a DRE e o extrato do mesmo mês quase nunca dão o mesmo número.

Fazer a DRE uma vez não resolve. O faturamento vai continuar aparecendo sozinho todo dia, e o lucro vai continuar escondido se ninguém for buscá-lo. O que funciona, na minha visão, é dar ao resultado o mesmo lugar que o faturamento já tem: na frente de cada decisão que custa dinheiro todo mês.

LINK RECOMENDADO

O Manual de Indicadores ajuda você a escolher os números que merecem sua atenção toda semana, com uma planilha de sete abas, a ficha do indicador e o roteiro da leitura semanal.

A FERRAMENTA

Antes da próxima decisão que vai pesar todo mês, faça assim:

  1. Monte a DRE gerencial do mês passado com os registros de vendas, custos e despesas daquele período, pagos ou não. Use os extratos para conferir, não como única fonte. Tire devoluções e impostos, o custo do que vendeu (não de tudo o que comprou) e as despesas, contando o pró-labore. Se houver dúvida na classificação, confira com o contador.

  2. Escreva o resultado em reais e em porcentagem do que vendeu. Esse é o número que vai para a mesa.

  3. Ao lado dele, escreva a decisão que está na sua cabeça: uma contratação, um desconto, um horário a mais, um pedido maior ao fornecedor.

  4. Descubra em qual degrau da cascata ela mexe e quanto. Despesa nova entra inteira lá embaixo. O desconto sai lá de cima, mas o custo do que você vendeu continua o mesmo, então quase todo ele cai direto no resultado.

  5. Compare o efeito com o resultado, não só com o faturamento. Se a decisão leva uma fatia grande do que sobra, ela precisa trazer de volta mais do que custa, e você precisa saber dizer de onde vem esse retorno.

  6. Repita todo mês. Eu fecharia até o dia 10 do mês seguinte, para o número chegar a tempo de mudar alguma coisa.

Quando não usar: a DRE não responde se vai ter dinheiro para o boleto de sexta. Como conta a venda quando ela acontece, pode mostrar lucro num mês em que o caixa caiu, e para o dinheiro do dia a dia o instrumento é o fluxo de caixa. Imposto, enquadramento e quanto dá para retirar como lucro são conversa com o seu contador.

❝

Faturamento mostra o volume vendido. A DRE mostra o resultado dessas vendas.

Me conta: qual foi a última decisão que você tomou olhando o faturamento, e ela continuaria de pé olhando o resultado?

Um grande abraço e viva com paixão!

Edson Oliveira
Fundador da Consylion

P.S.: Amanhã a conversa é sobre equipe: o feedback que fica engasgado vira cobrança disfarçada, e quem fala cedo, sobre o fato e com um pedido claro, preserva a relação.

Do conhecimento à aplicação

Fechar a DRE de um mês é o começo. Ler os números todo mês e chegar ao contador com as perguntas certas é o caminho inteiro. O Manual de DRE e Leitura dos Números ajuda você a entender onde o lucro aparece e quais perguntas levar ao contador, com uma planilha de leitura da DRE e do balanço e treze modelos de conferência e reunião. Ou veja todos os manuais de Financeiro.

Gostou desta carta? Encaminhe para alguém que empreende com você. Se ela chegou até você por um amigo, assine a Consylion Insights aqui. Uma carta por dia, às 7h10.